quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O verdadeiro legado de Simone de Beauvoir

O verdadeiro legado de Simone de Beauvoir
Esqueça ‘memes’ de Facebook partilhados após a prova do Exame Nacional do Ensino Médio. A contribuição da intelectual francesa e da sua geração para o mundo está muito além da espessura do debate político predominante nas redes

Por Murilo Cleto
Corria o ano de 1748 no reino de Nápoles, no sul da península itálica. Começavam as escavações do que seria uma das maiores descobertas arqueológicas de todos os tempos. Em 79 d.C., o vulcão Vesúvio entrou em erupção e arrasou cidades do antigo Império Romano, que permaneceram soterradas até o início da exploração da área. 17 séculos depois, veio a confirmação: as ruínas eram Pompeia, com toda sua cultura material preservada graças à tragédia.
De tudo aquilo que foi encontrado, o que era considerado precioso seguiu para a coleção particular do rei Carlo III. Aqueles objetos que eram entendidos como pouco relevantes foram destruídos, inclusive para que não caíssem em “mãos erradas” e desenhassem outra história que não a fundada sob os valores estéticos da nobreza napolitana.
É o caso da “coleção erótica” ali encontrada. O que não se perdeu com os descartes foi depositado no Museo Ercolanese dei Portici e, mais tarde, no Palazzo degli Studi di Napoli sob o nome de Gabinetto degli oggetti osceni, rebatizado de Gabinetto degli oggetti riservati em 1823. Décadas mais tarde, o gabinete passou a se chamar Raccolta pornográfica. Seja como for, o acesso ao seu conteúdo permaneceu restrito até o ano de 2000, quando a coleção finalmente foi aberta para visitação pública. Não sem calorosos protestos do Vaticano, que, por um porta-voz, disse que “não interessa o que esses objetos significavam para os romanos. Hoje eles são obscenos, e ponto final”.
Apesar de danoso, o constrangimento provocado pela coleção erótica de Pompeia é bastante compreensível. Até pelo menos os anos 1960, prevaleceu hegemônica a ideia de que a sexualidade só poderia ser encarada a partir de uma tradição ocidental calcada em dois universos de interpretação: o judaico-cristão e o cientificista. De um lado, a percepção de que o sexo é algo moralmente condenável, assim como toda forma de prazer, e só admissível para fins de reprodução e, de outro, a tendência em transformá-lo num objeto passível de análise seriável. Vem do século XIX, aliás, a origem da utilização do termo “homossexualidade” para caracterizar práticas de amor e prazer entre pessoas do mesmo sexo.
A história do corpo e das mentalidades
Em pleno ano de 2015, uma questão no Exame Nacional do Ensino Médio provocou escândalo. Trata-se de um trecho de O Segundo Sexo, livro originalmente publicado por Simone de Beauvoir em 1949. Nele, a autora francesa sustenta que as diferenças sexuais não são biologicamente determinadas, mas socialmente construídas.
Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.
Foi somente a partir dos anos 1960 que essa forma de encarar o sexo chegou à historiografia, até então ocupada demais com estruturas econômicas e pouco atenta a comportamentos e ideias, com medo, talvez, de recuperar o laço histórico com a filosofia, desfeito somente no século XIX. Ironicamente, foi um filósofo, Michel Foucault, quem se apropriou de boa parte desta bagagem para mais tarde escrever, em três tomos, História da Sexualidade.
Contemporânea de Foucault, a 3ª geração de Annales, representada por Le Goff, Nora, Vovelle, Veyne, Ariès, Ladurie e tantos outros, ficou conhecida como História das Mentalidades, uma corrente de ruptura com o estruturalismo econômico voltada às práticas e os saberes. A prerrogativa aberta enfim permitiu uma história do medo, da morte, da tristeza e, claro, da sexualidade. Até então vigorou uma perspectiva ancorada na tradição dos arqueólogos mediterrâneos que acreditam que o ser humano é sempre o mesmo e, portanto, a sua sexualidade é um comportamento inato. Foi o que ajudou a incentivar interpretações anacrônicas sobre a sexualidade noutros tempos, fortemente calcadas nos juízos de valor trazidos pela tradição judaico-cristã e também científica de um contexto marcado pelo controle vitoriano sobre o corpo.
Em 1978, o historiador Jean Delumeau dedicou parte do capítulo “Os agentes de Satã” em História do medo no Ocidente para tratar especificamente sobre a figura da mulher e de que maneira ela foi concebida pelo imaginário cristão. Além de propriedade (“Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” [10º Mandamento: Êxodo, cap. 20, vers. 17]), ao sexo feminino também foi delegada ampla responsabilidade sobre o “pecado original”, como fundamentado pelo início do Antigo Testamento.
Para a mulher como personificação de Eva, o historiador e teólogo do Império Romano Tertuliano disse: “Tu deverias usar sempre o luto […] a fim de compensar a culpa de ter trazido a perdição ao gênero humano. Mulher, tu és a porta do diabo. Foste tu que tocaste a árvore de Satã e que, em primeiro lugar, violaste a lei divina”.
A partir da Baixa Idade Média, esta percepção se acentuou. Para Odon, abade de Cluny do século X, “a beleza física não vai além da pele. Se os homens vissem o que está sob a pele, a visão das mulheres lhes viraria o estômago. Quando nem sequer podemos tocar com a ponta do dedo um cuspe ou esterco, como podemos desejar abraçar esse saco de excremento?” Em 1185, André Le Chapelain escreveu que “a mulher é um verdadeiro diabo, uma inimiga da paz, uma fonte de impaciência, uma ocasião de disputas das quais o homem deve manter-se afastado se quer gozar a tranquilidade”.
“É preciso varrer a casa? – Sim. – Sim. Faze-a varrê-la. É preciso lavar de novo as tigelas?
Faze-a lavá-las. É preciso peneirar? Faze-a peneirar. É preciso lavar a roupa? Faze-a lavá-la em casa. – Mas há a criada! – Que haja a criada. Deixa fazer a ela (a esposa), não por necessidade de que seja ela que o faça, mas para dar-lhe exercício. Faze-a vigiar as crianças, lavar os cueiros e tudo. Se tu não a habituas a fazer tudo, ela se tornará um bom pedacinho de carne. Não lhe deixes comodidades, eu te digo. Enquanto a mantiveres atenta, ela não permanecerá à janela, e não lhe passará pela cabeça ora uma coisa, ora outra”, foi o que disse no século XV Bernardino de Siena, tornado santo depois pela Igreja. Já na Idade Moderna, o humanista Thomas Murner descreveu a mulher como “diabo doméstico”.
Neste contexto, a grande contribuição de Delumeau à historiografia foi demonstrar como o medo, natural e, portanto, biológico, poderia adquirir diferentes formas de acordo com o contexto de sua produção e, mais do que isso, produzir variadas forma de violência, física e simbólica.
Instrumentalização teórica e ação política
A partir do arcabouço destas renovadas ciências sociais nos anos 1960, amplamente dispostas ao diálogo interdisciplinar sobretudo entre história, antropologia e psicologia, a percepção sobre o mundo mudou radicalmente. Isso em grande parte porque cláusulas aparentemente pétreas do comportamento humano finalmente passaram a ser revistas por um processo importante de desnaturalização.
A rigor, esta guinada significou a abertura de um precedente: ora, se as coisas, dentre elas o próprio corpo, não são naturais, isso significa que elas foram elaboradas; se foram elaboradas, é porque podem também ser transformadas. Não que movimentos sociais tenham surgido fundamentalmente a partir de escolas teóricas, mas foram elas que forneceram importantes subsídios para uma onda de contestações que tomou conta do Ocidente através de organizações políticas pelos direitos dos negros, dos homossexuais e das mulheres, por exemplo.
O que produziu Beauvoir neste contexto é apenas a percepção de que o que se entende naturalmente por mulher é, na verdade, uma colcha de retalhos elaborada por milênios de civilização. Os protestos feministas influenciados pelo seu pensamento, como questionou o Enem, são um fato.
Mas não demorou nada para que Jair Bolsonaro, Marco Feliciano e até mesmo importantes articulistas passassem a questionar a legitimidade da prova. Logo após a aplicação do sábado, Bolsonaro exibiu a questão junto a um anexo que dizia “Mais ou tão grave quanto a corrupção é a doutrinação imposta pelo PT junto a (sic) nossa juventude. ‘O João não nasceu homem e a Maria não nasceu mulher’. O sonho petista em querer nos transformar em idiotas materializa-se em várias questões do ENEM (Exame Nacional do Ensino Marxista)”. Pelo Facebook, milhares de compartilhamentos reproduziram uma imagem de Beauvoir que classificavam-na como “nazista” e “pedófila”.
Na Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman mostrou-se inconformado com o viés “ideológico” do exame representado pelo alto índice de autores por ele considerados de esquerda, 31%. Segundo Schwartsman, que jogou Simone de Beauvoir, Karl Mannheim, Slavoj Zizek, Agostinho Neto e Paulo Freire no mesmo bolo, as questões do Enem foram “capazes de disparar conexões neurais esquerdistas nos candidatos”. E os demais 69%? Em coluna na Boitempo, o psicanalista Christian Dunker foi certeiro: joga-se para a “ideologia” tudo aquilo que em tese não respeita princípios objetivos de uma ciência neutra justamente para incluir no campo da imparcialidade aquilo que a direita convencionou correto.
Verdade seja dita, a repercussão do Enem reflete a espessura do debate político predominante nas redes sociais. De um lado, boicotes e ilações delirantes sobre o que significa discutir violência doméstica, Zizek ou Beauvoir numa prova para estudantes de ensino médio, e, de outro, ofensas revanchistas com a utilização de termos como “piroco”, “opressor” e “machisto”. De Beauvoir mesmo, pouco ou quase nada.
Em nota, o professor Moysés Pinto Neto recuperou Kant para, ao mesmo tempo em que reforçar a importância da relação entre teoria e prática, rechaçar a associação tosca que se tem feito entre o estudo de autores e o que se convencionou chamar de “doutrinação”. De acordo com a lógica neomacartista imperante, autores mundialmente reconhecidos não podem ser sequer mencionados em exames escolares. Quando o óbvio já não se apresenta com tanta clareza, foi preciso dizer: “Estudar Marx, Milton Santos e Simone de Beauvoir é uma exigência básica de qualquer currículo em ciências humanas, concorde-se ou não com eles. Aliás, para discordar é preciso ter estudado e verificar quais são os argumentos e conhecer um autor não significar aderir às suas ideias. Antigamente chamava-se isso de ‘honestidade intelectual'”, concluiu.
Há, evidentemente, explicações razoáveis para este desespero. Quando Beauvoir lançou luz sobre a historicidade da mulher, evidenciou também o caráter social das suas atribuições, até então tidas como naturais e irreversíveis. E, da mesma forma, tudo o que permanecia dentro de um universo confortável de opressões cotidianas, como pouco a pouco as ciências sociais passaram a revelar, e que sobreviviam a partir de argumentos imobilizantes como o recorrente “sempre foi assim”. O que sua geração desnudou foram essas manobras históricas de naturalização e, portanto, a possibilidade real de mudança.
Graças a Beauvoir é possível olhar hoje para a coleção erótica de Pompeia para, a partir dela, descobrir a relação dos romanos com a sexualidade, para eles um continuum – e não uma ruptura – com religião e identidade, sem sentimento de culpa ou obsessão cientificista de caterigorização de comportamentos. Para os romanos, pendurar objetos fálicos nas casas era sinônimo da busca por sorte, por causa da associação recorrente e cotidiana entre pênis e fertilidade. Sem as “teorias de gênero”, essa percepção seria mais do que improvável na história, fadada talvez ao olhar pudico e, numa palavra, infértil.
O que se quer, no fim das contas, tanto com Simone de Beauvoir quanto com o que ela representa, é devolvê-la ao gabinete italiano trancafiado onde se esconderam os traços do que a civilização rejeita como parte de sua história. O que está em jogo aqui, e aparentemente mais do que nunca, é a chave que lhe dá acesso.
Foto de capa: Alberto Korda

http://www.revistaforum.com.br/semanal/o-verdadeiro-legado-de-simone-de-beauvoir/

terça-feira, 10 de novembro de 2015


# 2. Albert Einstein tomando sol em Long Island com um amigo em 1939.
# 3. Jovem em Baltimore em 1938.
# 4. Foto clássica de Audrey Hepburn.
# 5. Trabalhador desempregado em 1939.
# 6. Arqueiros japoneses por volta de 1860.
# 7. O fatídico desastre de Hindenburg em 1937.
# 8. Tropas britânicas viajando para as linhas de frente na Inglaterra em 1939, no início da Segunda Guerra Mundial.
# 9. Joseph Goebbels franzindo a testa para o fotógrafo Alfred Eisenstaedt após saber que ele era judeu, em 1933.
# 10. Loja ‘Old Gold’ em 1939.
# 11. Walt Whitman em 1887.
 12. Acidente em Washington, EUA, em 1921.
# 13. Mark Twain em 1900.
# 14. Charlie Chaplin em 1916
# 15. Elizabeth Taylor em 1956.
#16. Marilyn Monroe
# 17. Os irmãos Kennedy.
Pablo Picasso.

Atingimos a burrice máxima

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/09/opinion/1447075142_888033.html
Simone de Beauvoir
A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da questão do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a filósofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino Médio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, começando pela frase célebre: “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a pública. Dia após dia.
Recapitulando alguns espasmos do mais recente surto de burrice. O verbete de Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipedia, conforme mostrou uma reportagem da BBC, foi invadido para tachar a escritora de “pedófila” e “nazista”. A Câmara de Vereadores de Campinas, no estado de São Paulo, aprovou uma “moção de repúdio” à filósofa. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), da Bancada da Bíblia, descobriu na frase “uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens”. Em sua página no Facebook, o promotor de justiça do município paulista de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum,chamou Beauvoir de “baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”. Como o tema da redação do ENEM era “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, houve gente que estudou em colégios caros afirmando que este era um tema de esquerda, e portanto um sinal inequívoco de uma conspiração ideológica por parte do governo federal. Como sugeriu o crítico de cinema Inácio Araújo em seu blog, se defender que a mulher tenha o direito de andar sem ser perturbada, agredida e chutada é tema de esquerda, isso só pode significar que a direita vai muito mal.
A única arma capaz de derrotar a burrice é o pensamento
Está cada vez mais difícil fazer humor no Brasil. Como nada do que foi relatado acima é piada, somos submetidos cotidianamente a uma experiência de perversão. Também não tem sido fácil escrever quando não se é humorista, por que o que se pode dizer, seriamente, diante de uma moção de repúdio à Simone de Beauvoir? Mas é preciso tratar com seriedade, porque talvez não exista nada mais sério do que a boçalidade que atravessa o país. Torna-se urgente, prioritário, fazer um esforço coletivo e enfrentar a burrice com o único instrumento capaz de derrotá-la: o pensamento.
Esta é a potência e a generosidade de um livro lançado pela filósofa Marcia Tiburi, escritora e professora universitária. O título vai direto ao ponto, afinal os tempos são graves demais para papinhos de salão: Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record). Nas 194 páginas, Marcia enfrenta as várias faces do cotidiano atual com profundidade, mas de forma acessível a quem não está familiarizado com os conceitos. Faz o mais difícil: escrever simples sem simplificar. É um livro que se pretende para todos, e não para os seus pares. Quem acompanha a trajetória da filósofa conhece a sua coragem. E este é um livro de coragem, já que é tão difícil quanto arriscado escrever sobre o que está em movimento, sem a proteção assegurada pelo distanciamento histórico. Poucos são os intelectuais que se arriscam a sair do conforto de seus feudos para enfrentar o debate público com suas dúvidas. E por isso aqueles que se arriscam de forma honesta, sem ficar arrotando suas certezas e suas credenciais, ou usando-as para massacrar aqueles que já são massacrados, são tão preciosos.
O confronto atual não é entre direita e esquerda, mas entre os que pensam e os que não pensam
“Eu queria saber por que dialogar é impossível”, conta Marcia Tiburi, sobre a pergunta que a moveu nessa busca. Para enfrentar a ausência do pensamento, a filósofa propõe a resistência pelo diálogo. Este é um esforço de cada um –e de todos. Arriscar-se a deixar o “isolamento em comunidade”, a forma atual da vida social e política, para confrontar o que ela chama de “consumismo da linguagem”. Compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas é, segundo ela, uma redução. O confronto atual seria mais profundo e também mais dramático: entre os que pensam e os que não pensam.
O exercício que faço, deste parágrafo em diante, é buscar compreender a fogueira em que Simone de Beauvoir foi jogada nos últimos dias, entre outros fatos recentes, a partir das ideias deste livro. Para começar, a seriedade do episódio do ENEM pode ser demonstrada neste trecho tão agudo: “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”.
Vale perguntar. Num país em que a preocupação com a educação é uma flatulência, em que a não educação é a regra, para onde vai o lixo e que tipo de impacto ele produz na tessitura do cotidiano, nos corações e mentes de quem o consome? O que acontece com a fogueira de Simone de Beauvoir num contexto em que aqueles que a jogaram no fogo possivelmente sequer a leram? Que restos dos discursos vazios sobre a filósofa permanecerão na memória de uma população que não tem seus livros na estante e que tipo de eco produzirão?
Como dimensionar a gravidade de um vereador eleito, pago com dinheiro público para legislar e, portanto, para decidir destinos coletivos, dizer que a escolha da frase de Simone de Beauvoir para uma prova do ENEM é algo “demoníaco”, como afirmou Campos Filho (DEM)? E como enfrentá-la com a seriedade necessária?
Com a palavra, o autor da “moção de repúdio”: “Foram buscar lá Simone de Beauvoir, lá pro ano de mil trocentos e pôco.... (...) A grande maioria é favorável à lei da natureza. Homem é homem. Mulher é mulher. (...) Cuidado com essa pulsão, essa pulsão pode levar à cadeia. O senhor pode passar na frente do caixa eletrônico e ter uma pulsão de vontade de roubar e vai preso. Pode ter uma pulsão de vontade de estuprar e vai preso. Então, tomem cuidado com essa pulsão, ah, hoje de manhã sou menina, agora à noite eu sou homem....”.
O vazio de pensamento não é silencioso, mas repleto de clichês, frases prontas e repetições
O vereador nem sequer sabe em que século Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento – “miltrocentos e pôco”. Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no ENEM significa. Não é engraçado. É a ruína causando mais ruína. O que interessa é fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias. O que importa é perverter a palavra, usando o que sequer tentou entender para enclausurar o pensamento e reafirmar a certeza em nome de uma suposta “lei da natureza” que jamais existiu. A perversão do fascista é a de acusar o outro de manipulação ideológica quando é ele o manipulador. É acusar o outro de impor um pensamento quando é ele que empreende todo os esforços para barrar qualquer pensamento. É impedir o diálogo denunciando o outro pelo ato que ele próprio cometeu. É nessa repetição de boçalidades que seguem os discursos de outros vereadores, invocando clichês bíblicos, lembrando de Sodoma e Gomorra e Adão e Eva, abusando de Deus.
Para perverter a realidade, o fascista conta com o consumismo da linguagem. Trata-se, como aponta Marcia Tiburi, de um vazio repleto de falas prontas. Não é um vazio silencioso, espaço aberto para buscar o outro, o inusitado, o surpreendente. Mas sim um vazio barulhento, abarrotado de clichês, de frases repetidas e repetitivas, usadas para se proteger do pensamento. Os lugares-comuns, neste caso específico a constante invocação de Deus e de leis bíblicas, são usados como um escudo contra a reflexão. Todo o esforço é empreendido para não existir qualquer chance de pensamento, ainda que um bem pequenino.
Neste vazio, a filósofa acredita que os meios tecnológicos e a mídia desempenham um papel crucial. Repete-se o que é dito na TV, no rádio. Fala-se, muito, sem pensar no que se diz. No gesto do mero “compartilhar” sem ler, tão fácil quanto comprar com um clique pela internet, foge-se do pensamento analítico e crítico, trocando-o pelo vazio consumista da linguagem e da ação repetitiva. É assim que a burrice se multiplica em cliques, propagando-se em rede. O título deste artigo é esperançoso, mas não corresponde à realidade: a burrice não tem limites, ela sempre pode atingir patamares ainda mais extremos.
Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos
Episódios semelhantes à “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rincões afastados, e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na Câmara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do estado de São Paulo, no sudeste do Brasil, uma cidade que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das mais respeitadas do país. E cadê os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universitárias? Será? Não era de se esperar mais iniciativas de busca do diálogo, de criação de oportunidades para explicar quem é Simone de Beauvoir e refletir sobre sua obra, ou mesmo a ocupação da Câmara, para produzir reação e movimento que permitisse o conhecimento e combatesse a ignorância?
Talvez o polêmico livro Submisssão (Alfaguara), do francês Michel Houellebecq, possa ter alguma ressonância maior por aqui. Nele, só para lembrar, o protagonista é um acadêmico desencantado que se depara com a vitória de um partido islâmico nas eleições da França. Depois de assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela TV, já que não se sente motivado a participar de nenhum debate que não seja sobre a sua própria tese acadêmica (ou nem mesmo sobre ela), se choca com o resultado eleitoral. É o protagonista que não protagoniza –ou só protagoniza por omissão (ou submissão). Aos poucos, os novos donos do poder lhe acenam não só com a manutenção dos privilégios, mas com uma considerável ampliação dos privilégios. E ele, afinal, conclui que aderir pode não ser tão ruim assim.
Os burros estão por toda parte e muitos deles estudaram nas melhores escolas e, o pior, muitos ensinam nas melhores escolas. A “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir foi aprovada pela Câmara de Campinas por 25 votos a cinco. Assim, os burros são a maioria. É preciso enfrentá-los com pensamento, fazer a resistência pelo diálogo. Ou, como diz Marcia Tiburi: “Sem pensamento não há diálogo possível nem emancipação em nível algum. Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos”.
O promotor e professor universitário que reduziu Simone de Beauvoir a “uma baranga”, ao comentar a questão do ENEM em sua página no Facebook, fez o seguinte comentário: “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”. Depois da repercussão negativa, o que incluiu uma nota de repúdio por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Jorge Alberto de Oliveira Marum apagou os posts e defendeu-se, em outra postagem, alegando que pretendia ter sido irônico: “Ironia, para quem não sabe, é uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contrário do que se pensa”. Interprete-se.
A burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu
“Distorcer é poder” é o título de um dos capítulos do livro em que a filósofa enfrenta a prática amplamente difundida de esvaziar as palavras pela distorção. Como transformar a vítima em culpada, como se faz rotineiramente com as mulheres no falso debate do aborto, por exemplo, ou no tratamento do estupro. Ou distorcer para que aquele que detém os privilégios pareça ser o que têm seus direitos ameaçados: o branco, por exemplo, quando se apresenta como prejudicado pelo sistema de cotas raciais que busca reparar injustiças históricas cometidas contra os negros, ocultando assim que sempre foi o privilegiado; ou quando se invoca um suposto “orgulho heterossexual” na tentativa de mascarar a violência contra os homossexuais, alegando que querem privilégios, quando todos sabem que a heterossexualidade jamais foi contestada ou atacada, nem em sua expressão nem em seus direitos. E também é por essa conversão que os manifestantes de junho de 2013 foram tachados de “vândalos” por parte da mídia e, hoje, uma lei em discussão no Congresso ameaça converter quem protesta em “terrorista”.
A própria “democracia” pode ser vista a partir da prática da distorção, já que há aquela, mais difundida, que é vendida pelo mercado. “De um lado, há uma democracia que deve parecer como realizada, contra outra democracia, que está na ordem do desejo e do sonho e que não teria preço”. O capitalismo sequestra a democracia também como palavra, que passa a ser consumida, junto com outras: felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito. Palavras que a filósofa chama de “mágicas”, invocadas a serviço do ocultamento da opressão. “Antidemocrático, o capitalismo precisaria ocultar sua única democracia verdadeira: a partilha da miséria e, hoje em dia, cada vez mais, a matabilidade”, afirma Marcia Tiburi.
Quando se invade o verbete de Simone de Beauvoir na Wikipedia é também disso que se trata: distorcer e replicar até virar “verdade”. Aliena-se os fatos de seu contexto histórico para produzir rótulos. Assim, após o ENEM, a filósofa foi tachada de “pedófila” e de “nazista”. Ambas as afirmações já foram retiradas da página pelo responsável, avisando que a manteria fechada até “que o furor acabasse e as pessoas perdessem o interesse em danificar o artigo”. Entre as dezenas de distorções do verbete, segundo a matéria da BBC, um usuário disse que a filósofa havia escrito um "livro de estupro". Outro informou que Beauvoir era uma "antifeminista". Um terceiro disse ainda que ela era "muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justiça por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa”.
Se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?
As distorções servem à reprodutibilidade da burrice. Ao converter a filósofa no que é interpretado como o mais monstruoso – “pedófila” e “nazista” – o objetivo é tornar impossível refletir sobre o que ela escreveu: “uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. A ampla distorção das palavras serve, de novo, ao vazio do pensamento. Pede-se aos burros que a repliquem à exaustão em cliques histéricos. A linguagem, como escreve Marcia Tiburi, tem sido rebaixada à distribuição da violência – também pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. “Vivemos no império da canalhice, onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu”, afirma. “Ela se transformou no todo do poder.”
Aderir é viver. Esta parece ser a frase deste momento de orgulho da ignorância e exaltação da burrice. Aqui, a pergunta se impõe: “se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?”.
Na semana passada, foi divulgado na página da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República um estudo que reuniu pesquisadores de diversas instituições, apresentado como o mais completo já feito no Brasil sobre os efeitos da mudança climática. Refletir seriamente sobre a mudança climática é urgente, mas há muito menos pensamento e ação do que o momento exigiria, apesar de estarmos às vésperas da Conferência do Clima em Paris. Assim, a divulgação de um estudo com as conclusões a que se chegoupoderia ser uma oportunidade excelente para promover participação e diálogo. Mas, entre as tantas previsões que apontaram para um possível drama climático daqui a 25 anos, em 2040 – doenças, calor extremo, falta d’água e de energia etc –, uma foi destacada por diferentes veículos da imprensa: a possível perda de uma área imobiliária avaliada em R$ 109 bilhões no Rio de Janeiro, devido à elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.
Não as perdas humanas, não a corrosão da vida, não o aniquilamento dos mais pobres e dos mais frágeis. Não. O que se destaca é aquilo que se monetariza, é a perda do patrimônio material, no caso imobiliário. O que merece título é o cifrão. O episódio evoca um dos capítulos mais interessantes de Como conversar com um fascista: “O capitalismo é a redução da vida ao plano econômico. (...) O pensamento está minado pela lógica do ‘rendimento’. Viver torna-se uma questão apenas econômica. A economia torna-se uma forma de vida administrada com regras próprias, tais como o consumo, o endividamento, a segurança pela qual se pode pagar. Tudo isso é sistêmico e, ao mesmo tempo, algo histérico. (...) As palavras funcionam como estigmas ou como dogmas que sustentam ideias orientadoras de práticas”. Se a ordem do discurso capitalista é basicamente teológica, é porque ele funciona como uma religião no âmbito das escrituras e das pregações (em geral no púlpito tecnológico da televisão)”. Se depois de tanto calarmos sobre a mudança climática, falarmos dela a partir da lógica monetária, estamos todos (mais) perdidos.
Precisamos resistir em nome de um diálogo que torne o ódio impotente
Mas é em outro episódio destes últimos dias que a perversão do Brasil atual se revelou em toda a sua monstruosidade: a Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu em inquérito que o policial que matou um menino de dez anos agiu em “legítima defesa”. Eduardo de Jesus brincava na porta da sua casa, numa das favelas do Complexo do Alemão, quando teve a cabeça atingida por um tiro de fuzil. Sua mãe encontrou parte do seu cérebro na sala. O inquérito isentou de qualquer responsabilidade os policiais envolvidos, por estarem supostamente em confronto com narcotraficantes. Eles teriam apenas “errado” o tiro.
Eduardo estava a cinco metros do policial que o matou. Terezinha de Jesus, a mãe do menino, afirma que não havia tiroteio naquele dia. “Eu parti para cima do policial. Gritei que tinha matado meu filho e ele me respondeu, com seu fuzil na minha cabeça, que igual que tinha matado ele poderia também me matar, porque o menino era filho de bandido. Nunca vou esquecer aquilo. Posso estar em qualquer lugar do mundo, que nunca esquecerei a cara daquele policial”. Ao ser 
informada por jornalistas que a polícia concluiu que seu filho foi morto em legítima defesa, Terezinha disse que sentia vontade “de quebrar tudo”.
Quando a perversão supera tal limite é porque estamos quase no ponto de não retorno. “Não acabaremos com o ódio pregando o amor”, diz Marcia Tiburi. “Mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente.”
Em Como conversar com um fascista, a filósofa defende a necessidade de começar a tentar falar de outro modo. O diálogo não como salvação, mas como experimento, como ativismo filosófico para enfrentar a antipolítica. A política, lembra a autora, “é laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas”.
Num país de antipolítica e antieducação generalizada como o Brasil é preciso se mover. É urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pareça impossível. Expor ao outro aquele que não suporta a diferença. Revelar suas contradições e confrontá-lo pelo diálogo é um ato de resistência. Enfrentar a burrice com a única arma que ela teme: o pensamento.
É isso ou não vai adiantar nem estocar alimentos.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site:desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebru

Nuvem que 'anuncia o fim do mundo' apavora australianos

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O fenômeno aconteceu em Sydney, na Austrália, e deixou perplexos moradores locais. Por conta da aparência, a nuvem se assemelhou muito com um tsunami, deixando diversas pessoas em alerta.

“Parecia uma imensa onda que estava vindo do horizonte para inundar tudo”, afirmou uma testemunha à CNN.

Em poucas horas, os registros da nuvem sinistra se espalharam pelas redes sociais, sempre seguidas de muito espanto.

https://br.noticias.yahoo.com/fotos/nuvem-que-anuncia-o-fim-do-mundo-apavora-australianos-1446835358-slideshow/onda-photo-1446834989961.html

terça-feira, 27 de outubro de 2015


Descrição: O jogador controla Sócrates Jones, que não entende nada de filosofia. Após um acidente ele vai parar no "mundo das idéias", uma espécie de paraíso onde todos os filósofos residem e debatem o tempo todo. Para sair desse mundo e voltar à vida, ele deve vencer o desafio de achar a "natureza da moralidade", assunto discutido por basicamente todos os filósofos até hoje.
O jogo foi incrivelmente bem construído, utilizando de piadas construídas a partir da história dos filósofos, coisa que faz o jogador se interessar em buscar as origens dessa piada. Usando diálogos e argumentos presentes nos textos dos filósofos representados, o jogador se sente realmente sobre a pressão de ter que achar a resposta certa para voltar à vida e se sente satisfeito quando encontra cada resposta de cada diálogo.
Depois de derrotar alguns rivais (filósofos reais, utilizando argumentos reais), o jogador se sente envolvido de uma forma que começa a raciocinar de uma forma diferente para derrubar cada sistema filosófico que lhe é apresentado.

Infelizmente o jogo está em inglês, mas não impede que os alunos o experimentem e, até mesmo, se familiarizem mais com a língua.

https://
docs.google.com/document/d/1OqFqRh_1VxY3QPm45hXC7hLzL5wuSxXK8Q_ULfUEDxE/edit